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19 de Agosto de 2017

O Enigma de Kaspar Hauser e o homem enquanto ser sócio-histórico

Pois o cinema também está nos autos

Anderson Marinho, Estudante
Publicado por Anderson Marinho
há 3 anos

O “Enigma de Kaspar Hauser” é um filme alemão de 1974, dirigido por Werner Herzog, considerado um dos que compõem o chamado triunvirato responsável pelo ressurgimento do cinema alemão no fim da década de 60 e início de 70.

O longa-metragem nos traz a misteriosa história de Kaspar Hauser que foi abandonado quando criança e encontrado por uma família agricultora que, sem condições financeiras para criá-lo adequadamente e temendo represálias por parte das autoridades por não saber qualquer informação a respeito da criatura, não apresentaram denúncia, desta forma, passam a aprisioná-lo num calabouço, onde Kaspar passa toda a sua vida sem ter qualquer contato com o mundo exterior, com a linguagem, a cultura e ignorando por completo a existência de outros seres humanos. Jamais viu sua aparência. Jamais viu qualquer semelhante. Não tem noção de si, não desenvolveu nenhuma habilidade psicomotora, comprometendo sua própria locomoção.

Destarte, Kaspar existe apenas fisiologicamente e inexiste racionalmente. Não se reconhece em nosso protagonista qualquer comportamento humano. Trata-se de uma ilustração de como somos seres sócio-históricos, sobre como a cultura é algo importante para a consolidação da humanidade. De como, somos sociais por natureza e quando privados dessa característica inerente perdemos parte de nossa essência. Isto nos leva a pensar sobre nossa existência. Sobre o que, essencialmente, nos torna humanos.

Para Rousseau “o homem é bom por natureza e a sociedade é que o corrompe”, porém, o mesmo autor reconhece que todos já nascemos imersos em um ambiente social, reconhecendo a família como o menor, e fundamental, núcleo da sociedade. Logo, se já nascemos nesse ambiente social e nos condicionamos às regras estabelecidas neste núcleo primordial, já somos corrompidos desde já. Mas e se somos privados logo nos primeiros dias de vida desse ambiente? E se o contato que temos com tal ambiente é o mínimo possível, considerando este apenas como o necessário para a nossa sobrevivência inicial, e logo em seguida, perdemos tal contato? As possibilidades que perdemos são imensas. E neste ponto, Werner (o diretor do filme) nos brinda com sua imaginação ao tratar da temática com maestria. Nos mostra uma personagem intrigante, diria que até angustiante, de modos rústicos, grosseiros como talvez o fossem nossos ancestrais, mas sem a habilidade manual desenvolvida inicialmente por estes, haja vista que nem mesmo o pobre miserável sabe manter-se de pé, em equilíbrio, para esboçar seus primeiros passos em fase adulta.

O texto “Biologicamente Cultural”, de autoria da Vera Silvia Raad Bussab com parceria de Fernando Leite Ribeiro, nos fala sobre como em nossa evolução “O modo de vida estritamente cultural impõe uma série de exigências para seu funcionamento. Para começar, aumenta muito a importância da proximidade e das relações sociais por um lado, e da inteligência, por outro. Nenhuma espécie envereda por um caminho destes impunemente”. Em uma analogia grosseira com a teoria da superestrutura-infraestrutura do marxismo, é o que se vislumbra. Em determinado momento, esta superestrutura (a cultura) ganha tal autonomia que passa a influenciar a infraestrutura (as relações humanas), que antes a alimentavam.

Nesse mesmo sentido, Engels em “Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem”, partindo de uma premissa darwiniana, ressalta em tal manuscrito a importância do trabalho na formação do homem, e ainda nos esclarece que “evidentemente, não é possível buscar a origem do homem, o mais social dos animais, em antepassados imediatos que não vivessem congregados”. Sendo assim, acompanhando o raciocínio de Engels, podemos tratar de uma maneira geral que o trabalho, tendo influenciado o desenvolvimento humano, principalmente a partir do momento em que nossos antepassados antropomorfos começaram a adotar a posição erecta prescindindo-se das mãos, foi também o determinante para o desenvolvimento da linguagem, da cultura, do conhecimento humano como um todo.

Do ponto de vista psicológico, diríamos que a subjetividade humana é construída a partir da sua interação com o mundo exterior, e que a vontade, que ouso pensar ser a manifestação de parte de nossa subjetividade, ao mesmo tempo em que influencia, quando exteriorizada, é também influenciada. Remeto assim ao exemplo de Kaspar Hauser, nosso conturbado protagonista, cujo contato com o mundo exterior foi mínimo.

O filme de Herzog parece nos induzir a este raciocínio, de que somos seres “sócio-históricos”, pois no decorrer de todo filme percebe-se que o contato com outros seres, e consequentemente com a cultura humana, Kaspar desenvolve seu raciocínio, sua compreensão de mundo e mesmo seus sentimentos. Em uma das cenas mais comoventes do filme Kaspar ao embalar um bebê em seus braços, que para de chorar, se emociona e questiona-se, mesmo que sem tanta articulação, porque é tão desprezado por outros.

Das primeiras impressões que se têm sobre Kaspar, temos desde a ideia de que “seu espírito está na mais completa incúria”, o afastamento de um principado, a necessidade de querer enquadrá-lo em normas legais da sociedade vigente até chegarmos ao ponto de que para custear sua onerosidade ao governo submetê-lo a uma espécie de “Freak Show”, onde figuram ao seu lado outros “enigmas do mundo”, como o “pequeno rei” descendente de uma família de gigantes (reza a lenda que a cada geração seus monarcas diminuem de tamanho), o “pequeno Mozart” que vive embora saiba todas as partituras de seu ilustre homônimo nunca aprendera a ler e escrever, e por fim o cômico “hombrecito”, um índio selvagem que jamais para de tocar sua flauta sob o risco de todos da cidade morrerem.

Do pouco contato que Kaspar teve com o mundo, com exceção da estadia com seu tutor a quem lhe dá o devido tratamento afim de ajudá-lo, suas impressões parecem não ter sido muito agradáveis, tendo sido subjulgado e submetido a experiências desagradáveis, como o aprisionamento na masmorra junto a outros vândalos (mesmo sem ter cometido crime algum), a passagem pelo circo de “atrações freaks”, a excentricidade de um Lord inglês que o queria adotar como um protegido, levam a personagem a tristes conclusões como “minha aparição neste mundo foi um golpe duro”.

Diante disso, podemos nos perguntar se a noção de humanidade depende não apenas de nosso auto-conhecimento, mas por estarmos inseridos em um ambiente social, depende também da atribuição do outro, ou seja, se a noção de ser humano está intimamente ligada na premissa de reconhecer no outro alguém semelhante e dotado das mesmas faculdades de que dispomos. Nestes termo, segundo afirmação de Bock, Furtado e Trassi Teixeira, em Psicologias, “A única aptidão inata no homem é a aptidão para a formação de outras aptidões”. Ouso afirmar que pode haver uma influência kantiana neste pensamento, visto que para o pensador de Konnigsberg, o homem é um ser dotado de razão, diferentemente dos animais, e por isto mesmo é possuidor de dignidade. Desta forma, atribui-se ao homem mais que uma série de comportamentos aprendidos em seu convívio com os outros, mas atribui-se de maneira mútua, além da razão, a dignidade humana. Somente assim, reconhecendo a dignidade do outro é que realmente nos distanciamos dos animais por meio da racionalidade que nos é inerente.

Por fim, “O Enigma de Kaspar Hauser” confunde-se com o enigma do próprio homem.

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